"Se pensas que és pequeno para fazer a diferença... tenta dormir num quarto fechado com um mosquito."
Provérbio africano, no editorial da revista "Recicla"

11.1.06

Francisco de Lucena

Filho de Afonso de Lucena e também natural de Trancoso, foi Secretário de Estado de D. João VI. Por razões políticas, em especial, por haver a suspeita que seu pai havia atraiçoado a Casa de Bragança, revelando segredos de D. Catarina e por ele próprio ter sido secretário de mercês, juntamente com Miguel de Vasconcelos, acabou por cair em desgraça, acusado finalmente, de cumplicidade na conjura contra o monarca. Depois de um processo duvidoso, é condenado à morte e degolado, em 28 de Abril de 1643. Julga-se de maior interesse o estudo desta figura, hábil na política e, especialmente, na diplomacia, cujo prestígio terá sido uma das causas da sua morte violenta.
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fonte: Proposta de elevação de Trancoso a Cidade

10.1.06

A Trancoso brasileira... Parte II


A pedido de "várias famílias", empreendi uma investigação para descobrir a razão de existir no Brasil um local com o nome de Trancoso. Já tinhamos visto que ali "havia mão" portuguesa, mas o porquê não se entendia. Pois bem, segundo Mariângela de Lara Moraes Daibert do Centro de Pós-graduação da Associação de Ensino de Itapetininga no seu trabalho "Trancoso, uma história de vida e educação" (2002), fonte que pode ser consultada em http://www.vozdetrancoso.com/historia.htm#colonia:

«(...)
Os jesuítas são expulsos do Brasil e de Portugal, em 1759, por Marquês de Pombal. Consegue ainda o governador, junto ao Papa, a extinção da Ordem. (Wehling & Wehling, 1994, p. 154 e Abreu, 1969, p. 203)
A Aldeia de São João, em 1759, é elevada a Vila "Nova Trancoso", por Alvará Régio de Dom José I, segundo o documento:"Aos vinte dias do mês de janeiro de 1759 anos, nesta Aldeia de São João da Capitania de Porto Seguro, onde eu tabelião adiante nomeado fui indo com o Capitão-Mor da dieta Capitania, Antônio da Costa Souza e o Ouvidor da mesma, Manuel da Cruz Pereira, e na casa sua aposentadoria, aí mandaram vir perante si todos os principais da dita aldeia e mais o povo dela ... determinar-lhes levantar Vila nesta Aldeia, fazer juízo a todos os mais oficiais da Câmara, justiça e milícia dando à nova vila o nome de Nova Trancoso ... e logo elegerão uma casa de telhas, que havia na dita Aldeia (junto à casa de morada dos Reverendos Missionários e dela por eles mandada fabricar para os seus despejos) para a casa da Câmara um Pelourinho de madeira lavrada em quatro faces, ... e que de hoje em diante não fosse intitulada com outro nome mais que com o referido, que o qual o dito Senhor lhe mandava dar." (Fontana, 1988, p.56)
(...)

No início do texto exposto, o autor fala sobre o pensamento ocorrido na época: 'nomear as novas vilas com nomes de vilas portuguesas semelhantes'. Surge uma explicação para o novo nome da 'Aldeia São João', então nomeada de 'Vila Nova Trancoso', provavelmente espelhado na Vila de mesmo nome em Portugal, situada no Distrito da Guarda, que fez fronteira com Celorico, conforme mapa encontrado no site www.cm-trancoso.pt (2002).»

Ou seja, parece que ambas as terras têm este nome porque...simplesmente...calhou! Depois da expulsão dos jesuítas renomeou-se as aldeias e todas passaram a ser Vila+Nova+(nome de uma vila de Portugal). A aldeia de São João calhou ser chamada de Nova Trancoso e assim ficou.

Fica o esclarecimento.

Cumprimentos,
Patrícia Geraldes

9.1.06

ACRT BASKET


No passado domingo a ACRT garantiu o título de campeãs de cadetes femininos do campeonato distrital da Guarda. Agora falta disputar um jogo para o culminar do campeonato, os cadetes femininos da ACRT recebe o Seia dia 22 de Janeiro um jogo para festejar a conquista do título distrital. Agora a aguardar-se o calendário para os jogos da Taça Nacional de cadetes femininos, os jogos começam a meio de Fevereiro. Saiba mais no blog da ACRT www.acrtbasket.blogspot.com .

Campeonato Distrital de Futsal - Jornada 4

No passado sábado (07/01) realizou-se mais uma jornada, na qual o G.D.Trancoso defrontou no pavilhao do Casal Cinza a equipa local, tendo obtido um empate a 3 golos, num jogo em que globalmente realizou uma boa exibição. Os resultados da jornada foram os seguintes:

A classificação está ordenada da seguinte forma:

A proxima jornada realiza-se no dia 14 de Janeiro(sábado), o G.D.Trancoso Futsal faz a sua estreia em "casa", defrontando o CDC do Pinheiro (Guarda) pelas 19h no pavilhão MultiUsos, num jogo que se espera emotivo e com algum caracter decisivo, apelando desde já á presença de muito publico, pois o apoio deste será certamente importantissímo para que seja possível alcançar o sucesso que se espera que esta equipa e esta modalidade alcançe no presente e futuro da cidade de Trancoso.

A Trancoso brasileira...

Depois de tantas visitas dos nossos "irmãos" brasileiros ao site de Trancoso, considerei importante também dar a conhecer um pouco da história deste paraíso localizado no Brasil e, à primeira vista, em quase nada parecido com o nosso cantinho aqui em Portugal.
Este texto talvez dê o mote para que também eles participem activamente no blog e até, quem sabe, descobrirmos mais factos em comum do que parecem existir. Afinal, se esta aldeia foi rebaptizada com este nome, algo teriam em comum, não?
A Trancoso brasileira é uma vila seiscentista localizada a a 25Km de Porto Seguro e a 740 km de Salvador, capital da Bahia, fundada por padres jesuítas portugueses em 1586 com o nome de São João Baptista dos Índios.
Em 1650 construíram a bela Igreja de São João. Isolada e desconhecida durante séculos, Trancoso foi redescoberta por jovens hippies na década de 1970 e popularizada por belos, ricos e famosos como Bruna Lombardi, Gisele Bündchen, Leonardo di Caprio, Naomi Campbell, Miguel Falabella e Elba Ramalho, entre muitos outros. A antiga aldeia de S. João dos Índios foi fundada no cimo de um promontório, mantendo-se até hoje como um dos últimos exemplares bem conservados das primeiras povoações do Brasil. Preserva o traçado típico das povoações jesuítas: a planta é rectangular – apesar de chamarem à praça Quadrado – na qual se inscrevem duas fileiras de casas coloridas e muito juntinhas, coroadas, no sentido da praia, com a igreja de São João Baptista, de costas voltadas para o mar. Os padres que construíram este harmonioso conjunto arquitectónico não viram, no entanto, a sua vida facilitada. No século XVII abandonaram o local, devido aos constantes ataques de índios que viviam no interior do Estado da Bahia. E, quando regressaram, cem anos mais tarde, foram novamente expulsos, mas desta vez por Marquês de Pombal. Em vez de lutas contra os indígenas, a segunda contenda travou-se com os governantes portugueses, na que ficou conhecida por Guerra das Missões: em meados do século XVIII, o então rei de Portugal, D. José I, assinou o Tratado de Madrid, que demarcava as novas fronteiras, em substituição do Tratado de Tordesilhas. Para que o plano fosse implementado, várias tribos teriam de ser removidas para outras regiões. Os indígenas revoltaram-se e os padres apoiaram-nos. Marquês de Pombal, com a firmeza insensível que lhe era peculiar, decidiu, então, expulsar a ordem, tanto de Portugal como do Brasil, e alterar a toponímia de todas as vilas que possuíssem nomes de santos. São João dos Índios foi rebaptizada de Trancoso e transformou-se numa aldeia praticamente deserta, pois a maioria dos moradores regressou às “roças” e limitava-se a visitar a igreja aos domingos e dias de festa. Assim permaneceu até aos anos 70. Podemos agradecer aos hippies a redescoberta Trancoso há cerca de 35 anos. Apareceram aos poucos e foram-se instalando nas casas vazias e abandonadas, em harmonia com os autóctones. Passaram a palavra e, em cerca de uma década, colocaram a vila novamente no mapa, auxiliados pela chegada, nos anos 80, da estrada de alcatrão e da electricidade. Depois disso, vieram os ricos e os famosos (o proprietário da Coca-Cola brasileira comprou casa nas redondezas, Elba Ramalho vive num casarão com vista para o mar e dizem que Gisele Bündchen também comprou um terreno a caminho da praia do Espelho, perto do local onde o presidente do Inter de Milão passa as suas férias) e também milhares de viajantes dos quatro cantos do globo, cujo número é travado apenas pelos preços aqui praticados. Depois, há mesmo quem chegue a trocar bons (mas stressados) empregos na cidade por uma nova vida, em Trancoso, abrindo lojas, pousadas ou restaurantes sofisticados. Após o boom turístico, alguns dos hippies pioneiros ficaram – a maioria transformados em homens e mulheres de negócios – outros partiram, quem sabe, em busca de outra terra prometida…

Gonçalo Fernandes Trancoso, o primeiro contista português

Pensa-se que Gonçalo Fernandes Trancoso nasceu em Trancoso na segunda década do século XVI e que morreu em 1596. Viveu em Lisboa e lá perdeu os filhos, a mulher e um neto aquando da peste em 1569.
Foi, historicamente, uma figura da literatura portuguesa e é considerado um dos primeiros contistas portugueses que juntou, uma famosa coleção de narrativas lusitanas e ibéricas que circulavam oralmente na Idade Média. A sua obra teve grande sucesso, sofrendo múltiplas reimpressões até ao século XVIII. No fim do século XX, foi assunto de vários estudos universitários importantes e de diversos artigos.
Além disso, a expressão "casos (ou contos, ou histórias) do Trancoso", quase proverbial tanto no Brasil como em Portugal, prova até que ponto o nome dele tem sido popular no decorrer dos séculos. No entanto, a obra ainda é relativamente pouco conhecida do grande público.

«Como no caso de muitos escritores do século XVI, os documentos de que dispomos sobre ele são muito poucos: algumas indicações autobiográficas dispersas pelos seus escritos, um decreto real publicado por Sousa Viterbo, e o privilégio concedido ao seu filho em 1585.
A partir dessas fontes podemos situar certas etapas da sua vida. Por exemplo:
no prólogo da primeira parte dos Contos, dirigido à Rainha viúva D. Catarina, declara: Ficando eu nesta cidade de Lisboa o ano de MDLXIX, […] a tempo que por causa da peste […] quasi todos seus moradores a despovoavam, […] perdi no terrestre naufrágio filha de XXIIII anos, que em amor e obras me era mãe, filho estudante, neto moço de coro da Sé. E para mais minha lástima perdi a mulher […].
Além disso, num passo da Regra Geral pera aprender a tirar pola mão…, ele nota (Cap. IX): Este ano de 1565, estando em Santarém com dous religiosos do convento de Tomar, […] e um menino que eu ali tinha comigo que era de dez anos e meio […]. Os críticos pensam que este menino é um neto do autor, talvez o moço de coro da Sé que morreu em 1569.
Estes dados permitem situar a data de nascimento de Trancoso com uma grande probabilidade no decênio de 1510.
Sobre a naturalidade dele não se sabe nada, embora Barbosa Machado afirme na sua Bibliotheca Lusitana que era natural de Trancoso, na Beira Alta, sem mais prova disso que o patronímico do contista.
Também não se sabe nada da sua formação: ele explica que o seu primeiro conto é um exemplo que disse um Padre da Companhia que ensinava no Colégio de Santo Antão em Lisboa. Ora os Jesuítas só chegaram a Lisboa depois de 1540, ano em que Trancoso era certamente adulto, e provavelmente casado já que ia ter um neto de uns 14 anos (?) em 1569. Portanto, deve ter ouvido o exemplum citado num sermão e não numa aula.
Também diz ser freguês de S. Pedro (Parte 1ª, conto I) e, apesar de João Palma-Ferreira ter pensado que podia tratar-se de S. Pedro de Alcântara, a maioria dos estudiosos julga que a sua freguesia era S. Pedro da Alfama, em pleno centro de Lisboa.
Trancoso dedica a sua Regra Geral pera aprender a tirar pola mão ao arcebispo de Lisboa, D. Jorge de Almeida, e os seus Contos à Rainha D. Catarina, viúva de D. João III, o que deixa supor que conhecia esses personagens, talvez por sua profissão. Além disso, algumas observações indicam que frequentava os meios religiosos (1ª parte, conto I ; parte 2ª, conto VI) e que viajou por Espanha (1ª parte, conto XVII). Também parece conhecer muito bem o funcionamento da justiça (1ª parte, conto XVI). O único documento oficial (encontrado por Sousa Viterbo e publicado em 1902) em que se alude a ele é uma carta real de 1575 em que é dado como fiador dum cidadão de Lisboa desterrado para Marrocos.
Por fim, o privilégio real da edição de 1585 dos Contos é concedido a Afonso Fernandes Trancoso «por tempo de cinco anos mais além do tempo que foi concedido a Gregório (sic) Fernandes seu pai já falecido». Como o privilégio é datado de 10 de Janeiro de 1585, pode supor-se que Gonçalo Fernandes Trancoso morreu em 1584, talvez antes: ele que escapou à peste de 1569 pode ter sido vítima da de 1579, que se prolongou por dois anos e que matou Camões… Em tal caso, ao longo da sua existência teria conhecido três reinados: o de D. Manuel I, o de D. João III e o de D. Sebastião. Deixou à posteridade dois livros muito diferentes um do outro: O primeiro, "Regra Geral pera aprender a tirar pola mão as festas mudaveis…", não pretende ser obra literária. Trata-se da exposição, acompanhada de desenhos explicativos, dum curioso método empírico destinado a conhecer a data das festas religiosas móveis, método conhecido e utilizado pelos marinheiros; o segundo livro, "Contos & Histórias de Proveito & Exemplo", é a primeira colecção conhecida deste género em português.O livro de Trancoso, na sua versão completa, apresenta-se em três partes. As edições mais antigas que chegaram até nós são a de 1575 (Lisboa: António Gonçalves), a de 1585 (Lisboa: Marcos Borges. Ver ilustrações), a de 1594 (Lisboa: António Álvares) e a de 1595 (Lisboa: Simão Lopes).



A de 1575, que consta de duas partes, traz um privilégio de 20 de Abril de 1571 para a primeira parte. Isto dá a pensar que esta parte talvez tivesse sido impressa separadamente, o que parece confirmar o prólogo da 2ª parte, em que Trancoso agradece a Rainha que lhe «fez a mercê de receber a primeira parte deste tratado, e [lhe] mandou parte do que custou o papel da impressão.». Não há rasto de tal edição, mas a tradução francesa de 10 contos só da 1ª parte, realizada por François de Rosset e publicada em Paris em 1620, é mais um indício a favor da sua existência. A de 1595 é a primeira que apresenta as três partes, as outras têm apenas as duas primeiras. No entanto, o privilégio concedido a Afonso Fernandes Trancoso em 1585 valia para as três partes e não se sabe por que motivo não chegou a imprimir-se então a terceira parte. Uma explicação plausível pode ser a necessidade de modificar os textos para evitar problemas com a censura que, em 1585, proíbe a impressão dos contos X da primeira parte, VII e X da segunda parte. Ora, o conto X da segunda parte é a continuação do X da primeira, e o autor anunciava uma continuação na terceira parte.No texto mais completo de que dispomos, o livro tem 20 contos na primeira parte, 11 na segunda e 10 na terceira, ou seja 41 ao todo. Como as três partes têm aproximadamente a mesma extensão, é óbvio que os contos da 2ª e 3ª parte são em geral mais longos que os da 1ª. No prólogo da 1ª parte, Trancoso propõe uma classificação para os seus escritos, explicando que a primeira parte consta de: «contos de aventuras, histórias de proveito e exemplo, com alguns ditos de pessoas prudentes e graves».
É interessante tal divisão. Não utiliza Trancoso o vocábulo novela, comum entre os italianos, mas que aparece por primeira vez na Península Ibérica com as "Novelas Ejemplares de Cervantes" (1613). Ele limita aparentemente o uso do termo conto aos relatos de ficção, destinados antes de tudo a divertir o público. A palavra história parece designar narrações consideradas como autênticas ou pelo menos tradicionais, e como tais escolhidas pela sua exemplaridade moral ou prática. Por fim os ditos relacionam-se com um ramo da literatura aforística, que consiste em recolher frases notáveis, pela graça ou a sabedoria, proferidas por pessoas célebres, situando-as brevemente num contexto: por exemplo, no fim da sua Crónica de D. João II, Garcia de Resende reúne «ditos» do rei (cap. 184 a 201). Existem várias compilações, geralmente manuscritas, desses «ditos»: José Hermano Saraiva publicou uma delas ("Ditos portugueses dignos de memória", Lisboa: Publicações Europa-América, s. d. [1980]).
Trancoso recolhe os seus relatos de várias fontes. Talvez não tenha inventado completamente nenhum. Menéndez Pelayo chamou a atenção para numerosos paralelismos com histórias que se encontram nas obras de contistas espanhóis contemporâneos; Teófilo Braga insistiu nas fontes italianas e nas fontes folclóricas; João Palma-Ferreira e Cristina Nobre desenvolvem detalhadamente essas análises. Mas o que é extremamente interessante é ver como Trancoso utiliza as fontes, que tipo de transposições ele opera, o trabalho de reescrita que elabora, o modo como intervém na narração: tudo isto põe em relevo o seu real talento de contista. Os paralelos que se podem estabelecer com outras colecções anteriores ou contemporâneas, em particular com as «patrañas» de Timoneda, provam que o Português dá aos seus contos traços muito pessoais, seja porque utilizou tradições diferentes, seja porque as trata com grande liberdade. Bom exemplo disto é o conto XVI da 1ª parte, que contém vários elementos idênticos aos da «Patraña 6ª» de Timoneda, mas inseridos numa história diferente e com coerência e eficácia narrativa maiores; outro exemplo: o conto I da 2ª parte lembra a «Gillette de Narbonne» de Boccaccio (9ª novela do 3º dia), mas o contexto é bem português, os protagonistas não pertencem ao meio aristocrático mas ao mundo do negócio marítimo, e a mulher que acaba por seduzir o próprio marido obedece à sogra e não age por iniciativa própria. Estas observações valem essencialmente para as duas primeiras partes, já que os contos da terceira se aproximam mais dos modelos italianos.Todos os contos têm um título em duas partes, geralmente duas frases: a primeira apresenta-se como a sentença moral, ou o princípio moralizante, que vai ser demonstrado pelo relato seguinte; a segunda propõe o argumento de dito relato. Quase metade dos contos tem como cenário uma cidade, portuguesa (Lisboa, Coimbra), espanhola ou italiana, mas o cenário, nunca descrito, serve apenas de fundo às cenas em que actuam as personagens. Embora apareçam representantes de todas as classes sociais – reis, nobres, bispos e ermitãos, burgueses e camponeses –, os meios evocados com predilecção são os meios burgueses urbanos: artesãos, mercadores, gente que trabalha muito e se honra de trabalhar, mas também se diverte, que se revela muito afeiçoada à família, que se preocupa pelo futuro dos filhos, respeita as obrigações religiosas e sociais e participa dos preconceitos do tempo – por exemplo no que diz respeito aos cristãos novos. Um traço notável é a tendência do narrador de intervir no relato para expressar a sua opinião sobre o que diz ou faz tal personagem. As suas reflexões são claramente moralizantes, e até chega a interromper o relato para desenvolver, num discurso comprido e argumentado, um assunto particular, por exemplo uma diatribe contra o suicídio no conto XVI da 1ª parte. A exemplaridade anunciada no título é portanto uma componente estrutural essencial na obra, caracterizada também pela abundância de provérbios citados ou de frases proverbiais.
Em conclusão, é preciso insistir na riqueza da obra deste pioneiro do conto literário em português. Embora manifeste uma verdadeira mestria na arte de contar e se revele capaz de manejar habilmente a retórica, ele não escreve apenas para a élite. Homem da cidade numa época em que os citadinos se divertem com os relatos tradicionais que se transmitem as gerações, muitas vezes com variantes, Trancoso quer agradar a um público urbano, e reúne contos populares, histórias cheias de imaginação e fantasia, e novelas autênticas, mais realistas, em que os leitores podem reconhecer as próprias preocupações quotidianas. Para nós, os contos de Trancoso são um testemunho excepcional sobre as mentalidades da época e a cultura das classes médias.»

texto de Anne-Marie QUINT, Universidade Sorbonne Nouvelle-Paris III

PARA SABER MAIS:

Bibliografia de Gonçalo FERNANDES TRANCOSO

TRANCOSO, Gonçalo Fernandes, Contos & Histórias de Proveito & Exemplo, [1ª e 2ª partes], Lisboa: António Gonçalves, 1575. (Edição fac-similada [Único exemplar conhecido: Biblioteca Oliveira Lima, Catholic University of America, Washington, U.S.A.] com introdução de João Palma-Ferreira, Lisboa : Biblioteca Nacional, 1982).
—, Contos & Histórias de Proveito & Exemplo, [1ª e 2ª partes], Lisboa: Marcos Borges, 1585 [Três exemplares conhecidos: Biblioteca do Paço Ducal de Vila Viçosa, Biblioteca Apostolica do Vaticano, Biblioteca Nacional de Paris].
—, Contos & Histórias de Proveito & Exemplo, [1ª e 2ª partes], Lisboa: António Álvares, 1589 [Único exemplar conhecido: Biblioteca do Congresso dos E.U.A.]
—, Primeira, segunda, e terceira parte dos Contos & Historias de Proveito & Exemplo, [Lisboa]: Simão Lopes, 1595 [Único exemplar conhecido: Biblioteca Pública de Évora].
—, Regra Geral pera aprender a tirar pola mão as festas mudaveis que vem no anno, a qual ainda que he arte antiga esta per termos mui claros novamente escrita por Gonçalo Fernandez Tranquoso: & dirigida aho Illustrissimo & Reverendissimo Sñor Dom Jorge Dameida (sic) Arcebispo de Lisboa, [Lisboa]: em Casa de Francisco Correa, 1570. (Reproduzido em Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra, Vol. VII, 1925, p. 141-210).
—, Histórias de Proveito e Exemplo, Antologia portuguesa organizada por Agostinho de Campos, Lisboa: Bertrand, 1921
—, Contos e Histórias de Proveito e Exemplo (Texto integral conforme à edição de Lisboa de 1624), Prefácio, leitura de texto, glossário e notas por João Palma-Ferreira, Lisboa: INCM, 1974.

Bibliografia sobre Gonçalo FERNANDES TRANCOSO
BERARDINELLI, Cleonice, «Um best-seller do século XVI», Estudos de Literatura Portuguesa, Lisboa: INCM, 1985.
BRAGA, Teófilo, Contos Tradicionais do Povo Português, Lisboa, 2ª ed. ampliada, 1914-1915 (Nova edição, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1987, 2 vol.).
DONATI, Cesarina, «Trancoso traduttore di Timoneda», Arquipélago, n° V, Revista da Universidade dos Açores, Série Ciências Humanas, Ponta Delgada, 1983, p. 65-94.
FERREIRA, João PALMA, Novelistas e Contistas Portugueses do século XVI, Lisboa: INCM, 1982.
—, Obscuros e marginados, Lisboa: INCM, 1980.MENÉNDEZ y PELAYO, Marcelino, Orígenes de la novela, Madrid: CSIC, 1943.
MIMOSO, Anabela, «Contos & Histórias de Proveito & Exemplo. Uma obra exemplar», Línguas e Literaturas, Revista da Faculdade de Letras do Porto, Vol. XV, 1998, p. 259-329.
NOBRE, Cristina, Um texto instrutivo do século XVI de Gonçalo Fernandes Trancoso, Leiria: Magno Edições, 1999.
QUINT, Anne-Marie, «Scènes de la vie urbaine dans les Contos & Histórias de Proveito & Exemplo de Gonçalo Fernandes Trancoso», Le conte et la ville, Cahiers du CREPAL n° 5, Paris: PSN, 1998, p. 101-117.
—, «François de Rosset traducteur de Trancoso», à paraître dans Hommage au Professeur Augustin Redondo, Paris: PSN, 2003.
VASCONCELOS, José LEITE de, «Um Trancosano ilustre», Revista Lusitana. Arquivo de estudos filológicos e etnológicos relativos a Portugal, vol. XXIII, Lisboa, 1920, p. 233-245.
VITERBO, SOUSA, «Materiais para o estudo da paremiografia portuguesa», Revista Lusitana, Vol. VII, Lisboa, 1902, p. 97-103.

8.1.06

G. D. De Trancoso vence derby frente ao S.C. Da Mêda

O G. D. de Trancoso venceu hoje o derby no seu estádio frente à equipa da vizinha Mêda. Começou melhor a Mêda conseguindo marcar o primeiro golo do desafio logo na primeira parte ao qual dominou em grande parte. No segundo tempo o Desportivo de Trancoso ganhou outro fulgor e apenas com dois jogadores no banco de suplentes conseguiu empatar em esforço a partida. O jogo ia aquecendo e pelo minuto 75 com o Grupo Desportivo em fase ascendente e controlando a partida marcou o dois a um numa fase que a equipa da Mêda estava um pouco perdida. No final houve alguns atritos entre o publico e um jogador da equipa da Mêda que teimava em ser o apanha bolas de serviço. O arbitro deu a módico tempo de descontos de 10 minutos e no fim do jogo o ambiente aqueceu. Os jogadores de ambas as equipas envolveram-se em tentativas mutuas de agressão o que foram dissipadas com a ajuda da GNR que ocorreu ao local. O Estádio teve uma boa assistência ou não fosse um derby e o jogo teve à altura proporcionando um bom espectáculo. O Desportivo de Trancoso começa assim o Ano Novo da melhor maneira com esta vitória.

Atitude!

Vivo em Trancoso há 6 meses e verifico que existem duas grandes diferenças entre a minha vida na Capital e aqui:

a) Brio profissional: Em Trancoso, responsabilidade da reduzida concorrência, não existe uma preocupação GENERALIZADA de fazer mais e melhor todos os dias. Esquecem-se os intervenientes que a economia é cada vez mais global e a aquisição de produtos e de serviços poderão passar cada vez mais por agentes exteriores ao concelho, distrito, país e até ao continente. Um exemplo: Chegam todos os dias a Trancoso empresas de distribuição para entregar encomendas, na sua maioria electrónica de consumo e electrodomésticos. Dá para pensar quando existem por cá diversas lojas para esses produtos.

b) Vida alheia: Numa cultura marcadamente rural e num panorama nacional cada vez mais com esse perfil, perde-se demasiado tempo a falar sobre a vida dos outros. Sejam os elementos da 1ª Companhia da TVI ou de alguns destacados trancosenses, o mote é quase sempre o mesmo. É dificil fazer entender a alguém com 60 anos que o seu futuro não passa por aí. Aos mais jovens exige-se essa capacidade.

Boa semana de trabalho.

7.1.06

Bandarra FM no próximo domingo em Aldeia Nova

A Rádio de Bandarra de Trancoso no habitual programa dedicado às freguesias do concelho de Trancoso vai estar no Domingo dia 15 de Janeiro pelas 10h00 da manhã na povoação e freguesia de Aldeia Nova em directo para todo o auditório. Neste programa aborda-se temas relacionados com a freguesia e curiosidades da mesma. Não perca... sintonize no seu rádio 92.1 Fm ou se estiver fora da região pode ouvir a Bandarra FM através do Portal Trancoso.pt.vu