"Se pensas que és pequeno para fazer a diferença... tenta dormir num quarto fechado com um mosquito."
Provérbio africano, no editorial da revista "Recicla"

15.10.08

ALDEIAS LAR


Duas povoações portuguesas aproximam-se de modelo inovador para apoiar idosos

Duas povoações do interior de Portugal, uma no Algarve e outra no Alentejo, aproximam-se de um modelo "inovador" que pretende transformar em "aldeias lar" para apoiar idosos as povoações em risco de desertificação. Trata-se da aldeia de São José de Alcalar, construída de raiz na freguesia da Mexilhoeira Grande, em Portimão, e de São Martinho das Amoreiras, no concelho alentejano de Odemira (Beja).

O modelo de "aldeias lar" é uma das "respostas concretas" para combater o envelhecimento da população e a desertificação do interior do país, que João Martins, professor universitário de Beja, vai propor na sua tese de doutoramento em Planificação Integral e Desenvolvimento Regional.

Em declarações à agência Lusa, o autor explicou que o modelo consiste em "revitalizar" as aldeias e vilas do interior do país com população envelhecida e em risco de desertificação, transformando-as em "aldeias lar". "Através de investimento público, privado ou misto, as casas devolutas ou abandonadas nestas povoações poderão ser adquiridas e reconvertidas em apartamentos para a habitação de idosos", precisou.

Além das habitações e dos equipamentos e serviços normais em qualquer localidade, continuou, o modelo sugere a criação de "unidades de apoio a idosos", onde, exemplificou, "poderão ser prestados serviços médico-sociais, como cuidados geriátricos ou paliativos".

De acordo com João Martins, São José de Alcalar, a nove quilómetros de Portimão, "apesar de ter sido construída de raiz, aproxima-se do modelo proposto de «aldeias lar»”. São José de Alcalar é a concretização do "sonho" do padre da Mexilhoeira Grande, Domingos Costa, que, explicou à Lusa, decidiu construir uma aldeia para "alojar idosos carenciados, sobretudo casais, que não podem continuar nas suas casas, mas também não se sentem bem nos lares tradicionais".

Na aldeia algarvia, propriedade da Fábrica da Igreja Paroquial da Mexilhoeira Grande e que começou a funcionar em 1995, vivem actualmente 105 idosos, de várias zonas do país, em 52 moradias dispostas em dois blocos circulares, um com 26 T1 e o outro com 26 T3.

Além das moradias, a aldeia dispõe também de um edifício central, com um refeitório, um bar, uma sala de actividades de tempos livres, uma lavandaria e um posto de saúde, onde um médico e uma enfermeira prestam cuidados de saúde primários aos idosos. Com uma área de cinco hectares, a aldeia dispõe ainda de uma capela e de um centro juvenil, frequentado por 170 crianças. Os serviços centrais da aldeia, que empregam 28 pessoas, além das refeições diárias, apoiam ainda os idosos nos cuidados de higiene pessoal e das habitações e promovem actividades de animação.

Depois da aldeia dos idosos, Domingos Costa já está a preparar a construção, que deverá começar em 2008, de um "novo sonho", a Aldeia dos Querubins, destinada a crianças.

No Alentejo, à entrada de São Martinho das Amoreiras, existe um lar "inovador", que começou a funcionar há quase um ano e, segundo João Martins, é uma valência que pode funcionar como "ponto de partida" para a aldeia se "transformar" numa "aldeia lar".

Propriedade da Casa do Povo, o Lar de São Martinho das Amoreiras, além de funcionar como centro de dia para 20 idosos e prestar apoio domiciliário a 30 utentes, dispõe da valência de internamento, com uma capacidade total de 25 camas.

Nesta valência, além de sete quartos com duas camas cada, o lar dispõe de seis apartamentos (um com um quarto individual e cinco com um quarto duplo cada), todos equipados com cozinha e casa de banho e preparados para pessoas com deficiência.

"Os apartamentos são uma valência de internamento inovadora, pelo menos no concelho, onde os outros lares dispõem apenas de quartos normais", salientou à agência Lusa o presidente da Casa do Povo, Mário Neves. De acordo com o responsável, a valência de internamento "está esgotada", com idosos, na sua maioria, provenientes do concelho de Odemira, e, actualmente,
"tem uma lista de espera de 60 pessoas". "É pena o lar não dispor de uma maior capacidade", lamentou Mário Neves, frisando que "se mais quartos e apartamentos houvessem, mais estariam ocupados".

Com o "moderno" lar, orçado em um milhão de euros e co-financiado em 80 por cento pela Segurança Social, salientou Mário Neves, "criou-se emprego" e a "maior parte" dos utentes (50), que frequentam o centro de dia e recebem apoio domiciliário, "não teve que abandonar as suas casas e ir para um lar".

Os 25 idosos "internados" no lar, que dormem nos quartos ou vivem nos apartamentos, frisou, "pelo menos, não tiveram que sair da aldeia ou do concelho e vivem em melhores condições e com apoio".


Por Luís Miguel Lourenço, da agência Lusa

in Solidariedade.Pt

11.10.08

Apple dá emprego a 150 em Braga


A Apple Europa estabeleceu um contrato com a IBM Portugal para a prestação de serviços de suporte a clientes e externalização de processos de negócio, uma actividade de apoio administrativo mais conhecida pela designação anglo-saxónica de Business Process Outsourcing (BPO).

O negócio, que está envolto em grande sigilo por imperativos contratuais, vai permitir a criação de 150 postos de trabalho em Braga. De salientar que a subsidiária portuguesa da IBM já dispunha nesta cidade do Minho, e também em Lisboa, de centros de prestação de serviços para a BP e a Unilever que empregam 250 pessoas.

Portugal foi escolhido pela boa relação preço/qualidade da mão-de-obra em relação a outros países europeus, nomeadamente Irlanda. Segundo Carlos Zorrinho, coordenador do Plano Tecnológico, Portugal está na mira de um número crescente de multinacionais, após algumas das subsidiárias (Microsoft e Toshiba) terem sido consideradas as melhores do mundo.

in EXPRESSO

5.10.08

"A Desertificação do Interior": Notas breves


Parabéns ao blogue Praça da República e ao seu editor João Espinho!

Depois de escutar os quatro oradores convidados, gostava de acrescentar o seguinte:
Hoje não nos faltam diagnósticos. Qualquer um dos presentes - assistência incluída - saberá identificar pormenorizadamente os motivos do atraso estrutural de Portugal, que são os mesmos da sub-região do interior.

O “Triângulo Vazio” referido pelo Prof. Renato do Carmo é a ausência de um projecto comum entre os diferentes actores territoriais, a saber: Politico; Investigação/Ensino; Tecido económico
E essa carência não ocorre apenas na aldeia estudada por esse orador. Acontece nas aldeias, nas cidades e lamentavelmente no país.
É esse “triângulo” que não pode continuar vazio.

Alertou o Dr. Pinho Cardão para uma questão central: A falta de união entre os deputados do interior.
Sabemos que a Madeira aprova e chumba orçamentos. Até mesmo um deputado do CDS foi suficiente para o fazer.

Porque motivo não se juntam os deputados do interior para viabilizarem um projecto, que mais do que importante para esta região, é fundamental para a competitividade do país?
Estaremos a exigir dos mesmos o suficiente?

A cobertura nacional de banda larga permite que a esmagadora maioria das actividades económicas se possam localizar onde mais lhes interessar. Já não têm, como no passado, que estar junto do seu mercado. É por esse motivo que dizemos que na Era da Economia do Conhecimento, esta não tem geografia: Pode estar no Interior de Portugal, na Índia ou onde mais lhe aprouver.
Faltam no entanto recursos humanos qualificados no interior para que este possa ambicionar ser sede profissional de serviços de alto valor acrescentado, como por exemplo, na área dos Sistemas de Informação ou na Consultoria Económica/Financeira.
Mas isso não significa que o interior não venha a captar esses talentos para o interior, principalmente se vier a criar “Centros de Trabalho Partilhado” que mais não são que espaços internet para profissionais que optem por vir viver para as suas segundas residências mas que necessitam de uma infraestrutura mínima para desenvolver aqui a sua actividade.

Outra oportunidade emergente é o NEARSHORING. Tal como ocorreu há 30 anos atrás com a implantação no interior de Portugal, temos renovadas oportunidades para instalar “industria” neste território. No entanto não podemos continuar a pensar na industria dos têxteis ou do calçado. Temos que pensar em Centros de Contacto telefónico, Centros de tratamento de dados (informação), indústria aeronáutica etc.

Se pretendemos ter um interior competitivo, e pegando no contributo do Dr. Jorge Pulido Valente, temos que pensar a uma dimensão regional e não a uma dimensão local: Faz sentido ter a cada 30 kms a repetição de todas as infra-estruturas sociais apenas porque mudamos de concelho?

É comum dizer-se que a “vida boa” pertence às grandes cidades. Foi um estigma com que crescemos e que legitimamente o Prof. António Covas contesta. Quem fizer tal afirmação esquece-se de alguns factores: Qualidade ambiental; Elevados custos de vida; Ausência de vida social; Falta de acesso à cultura, cujos custos para acesso à mesma se tornam incomportáveis com o escasso rendimento disponível.
Pergunto em que é que as metrópoles podem ser melhores que o interior e disponibilizo-me a fazer sobre isso um debate: Haja oradores para a defender.

Sobre este tema temos aqui bem perto um projecto que vale a pena conhecer: http://abrazalatierra.com

Para os interessados deixo também o endereço do projecto de que sou co-autor: http://iregions.org

Quero com este comentário referir que a nova responsabilidade de gestão do território passa em boa parte pela participação activa da população, com destaque para este fortíssimo meio de comunicação que é a blogosfera.

3.10.08

Castelo Rodrigo: Câmara apoia jovens casais

A Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo vai atribuir apoios por cada criança que nasça no concelho e aos jovens casais que se fixem no município, como forma de aumentar a natalidade, combater a desertificação e o envelhecimento da população.


Os valores das subvenções variam entre os 500 e os 750 euros, sendo o valor máximo atribuído a um agregado familiar que tenha um rendimento ‘per capita’ inferior ao valor mensal da Pensão Social no ano da candidatura. Os casais terão ainda de provar a sua deslocação para o concelho, tendo fixado residência há mais de um ano.

“Os municípios do interior estão despovoados de massa crítica, investimento e receitas próprias e, consequentemente, obrigados a mais investimento social, de inclusão e a mais obrigações culturais”, explicou esta quarta-feira o presidente da autarquia, António Edmundo, afirmando que “é verdade que são medidas que apenas tentam inverter o processo de desertificação”.

“Em boa verdade não temos conseguido estancar a sangria populacional para o litoral, para Espanha ou outras paragens”, confessou o autarca. “Se não fossem estes incentivos e inúmeras reduções de taxas autárquicas, como estaria hoje o interior?”, questionou.

O regulamento de atribuição de subsídios, já aprovado em Assembleia municipal, tem aplicação durante o biénio de 2008/2009 e entra em vigor já na segunda quinzena de Outubro. As candidaturas serão acompanhadas e avaliadas por uma comissão técnica criada para o efeito.

in Correio da Manhã

27.9.08

A nova amiga da floresta

É uma propriedade plana de 25 hectares de pinheiro bravo e solos arenosos perto de Grândola, e desde Março que os seus matos - ou combustíveis florestais, como gostam de lhes chamar os especialistas - têm sido limpos de uma forma inovadora, usando um rebanho de 16 cabras controlado por cercas eléctricas.

As cercas são alimentadas por painéis de energia solar e, numa segunda fase, cada animal será também controlado por telemóvel e através de um GPS na coleira, que permitirá a sua localização e identificação por rádio frequência. Um sistema que será, no fundo, uma espécie de cerca virtual: quando a cabra sair de determinada área o GPS envia as respectivas coordenadas e alguém recebe de imediato um aviso no telemóvel.

As cabras são da raça serpentina, típica do sul do país, comem tudo o que encontram à frente - silvas, tojo, urze - e prestam um serviço que custa entre 100 a 200 euros por hectare. É mais caro que um tractor (70 euros por hectare), mas tem vantagens muito compensadoras para o ambiente: não provoca poluição sonora, não implica o consumo de combustíveis fósseis, não emite CO2 para a atmosfera, valoriza a paisagem.

E tem benefícios sociais, porque são criados postos de trabalho para acompanhamento e cuidados de sanidade dos animais, e surgem novas oportunidades em zonas rurais deprimidas.

Mas em terrenos irregulares e pedregosos as vantagens económicas são evidentes. “Neste caso o método do pastoreio dirigido que usamos permite reduzir até 10% os custos normais da limpeza dos matos, porque além das máquinas há trabalho manual, e o custo do serviço pelos métodos clássicos pode chegar aos 2000 euros por hectare em zonas como a Serra de Sintra, onde fizemos a primeira experiência”, explicou ao Expresso Carlos Machado, um dos três promotores (dois engenheiros florestais e um zootécnico) da Caprinus & Companhia.

O projecto recebeu esta semana o Prémio Ideias Verdes - que inclui um troféu, um diploma e uma dotação em dinheiro de 50 mil euros - e foi entregue por Francisco Pinto Balsemão, presidente da Impresa, e Alberto da Ponte, presidente da Água de Luso, numa cerimónia que decorreu na sede do grupo Impresa (proprietário do Expresso), em Paço de Arcos.

“Há pelo menos um milhão de hectares de floresta em todo o país com condições para o pastoreio dirigido com caprinos”, salienta Carlos Machado. Depois dos projectos-piloto da Caprinus & Companhia (uma marca criada pela empresa Silviconsultores) na Serra de Sintra e em Grândola, estão em fase de conclusão as negociações para o primeiro projecto em larga escala, nas Serras de Aires e Candeeiros, no centro do país.

Trata-se de uma área de 700 hectares de floresta pertencente à Junta de Freguesia de Alcobertas (concelho de Rio Maior), onde vão ser necessárias mais de 200 cabras. “O dinheiro do Prémio Ideias Verdes vai ser todo investido neste projecto integrado, que poderá ter um impacto importante no desenvolvimento local, porque envolve uma parceria com a Junta de Freguesia e uma cooperativa leiteira com um efectivo de 2500 caprinos e planos para uma queijaria”, revela Carlos Machado.

in EXPRESSO, Virgílio Azevedo

UM PROJECTO INOVADOR

Biomassa florestal a níveis de baixo perigo de incêndio

Pastoreio dirigido por GPS, telemóvel e cercas eléctricas

Baixo custo

Reduzidas emissões de CO2, ausência de ruído e aumento da fertilidade dos solos

Criação de emprego em áreas rurais deprimidas

6.9.08

Compadrio político mata competitividade empresarial


Que o compadrio político é um cancro nas economias é algo empiricamente constatável. E frequentemente noticiado. Mas falta avaliar o seu impacto na gestão e na própria criação de riqueza. Parte dessa lacuna foi, agora, preenchida por uma investigação académica dirigida pelos professores Raj Desai e Anders Olofsgard para o Brookings Institution norte-americano.

A conclusão é arrasadora: o compadrio político é antieconómico. O estudo, intitulado ‘Do politically connected firms undermine their own competitiveness?’, demonstra com base num inquérito, entre 2000 e 2005, a um universo de 10 mil empresas em 40 países, na maioria do chamado mundo em desenvolvimento, que o compadrio político é prejudicial à economia, pois “fomenta a ineficiência, desincentiva a inovação, torna mais míope o planeamento, corrompe a competitividade e distorce a concorrência nos mercados”.


Relação cinzenta

Raj Desai sublinhou-nos que o perfil deste cancro é extensível além do chamado Terceiro Mundo: “Muitos países que são democráticos e mais desenvolvidos do que a maioria da nossa amostra sofrem deste mal. A relação entre democracia e compadrio é cinzenta”. Particularmente agravada em países onde a sociedade civil é fraca, a separação e equilíbrio de poderes é insuficiente ou recente, a justiça é débil, o «lobbying» não é transparente e os grandes grupos económicos e financeiros possuem redes informais de quadros que entram e saem da política, conseguindo um poder de influência desproporcionado. Estas redes de talentos são mais sofisticadas do que as típicas redes familiares e corporativas (por exemplo, altos quadros militares) dos países onde dominam cleptocracias e ditaduras. O estudo refere mesmo que “nos países da OCDE, as firmas com ligações políticas frequentemente representam posições significativas de capitalização de mercado”.


Captura do Estado

A literatura económica popularizou o termo de “captura do Estado” por estes mecanismos de obtenção de favores com valor económico (atribuição de monopólio, tolerância aos cartéis, restrições de mercado a concorrentes, açambarcamento de concursos públicos, subsídios e créditos publicamente garantidos legislados “por medida”, isenções “cirúrgicas”). Os beneficiários deixam o Estado refém de interesses particulares - quer dos políticos como dos empresários ou banqueiros - para obterem rendas ilegítimas actuais ou futuras.

No caso dos políticos de carreira, os benefícios traduzem-se em financiamentos políticos ou favores aos próximos (por exemplo, criação de emprego artificial) e quanto aos que optam pela “mobilidade” entre a cadeira política (que pode ser ministerial, parlamentar ou em agencias de regulação e fiscalização) e o lugar privado beneficiam, em regra, de consultoria, advocacia de negócios ou mesmo lugares cimeiros de administração passado algum tempo.

Raj Desai distingue o compadrio («cronyism», em inglês) da corrupção dos agentes públicos.

in EXPRESSO, Texto de Jorge Nascimento Rodrigues com Ilustração de Paulo Buchinho

19.8.08

Obrigado, Obikwelu.



Sobre este atleta, já sabia que era integro.
Mas estava longe de imaginar que seria ele a ensinar os portugueses a terem respeito pelas contribuições fiscais.