"Se pensas que és pequeno para fazer a diferença... tenta dormir num quarto fechado com um mosquito."
Provérbio africano, no editorial da revista "Recicla"

13.12.07

“Temos que ser nós a resolver os nossos próprios problemas”

António Realinho é economista de formação e especialista em desenvolvimento regional, área em que se encontra doutorado. Possui ainda duas pós graduações feitas em França (Universidade de Poitier) e em Inglaterra (Universidade de Oxford). Nesta entrevista, fala-nos das vantagens e das últimas oportunidades que o Plano de Desenvolvimento Regional (PDR) e o Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) representam para o País e para a nossa região.

Kaminhos - Neste momento temos o PDR e o QREN já em pleno arranque. Gostaria que me explicasse o impacto que estes instrumentos irão ter para a nossa região.

António Realinho (AR) – Neste momento estão numa fase inicial estes dois grandes instrumentos de intervenção comunitária no País. Por um lado o Plano de Desenvolvimento Rural (PDR).
Este programa aparece neste período de 2007-2013 num novo contexto da política agrícola comum dado que após a reforma de 2003 houve uma mudança de modelo na União Europeia, onde o antigo modelo muito assente na maior intervenção reguladora da actividade agrícola, está a dar lugar a um novo modelo mais ligado para o mercado e para uma agricultura mais ligava ao mercado global e para os factores de competitividade que o próprio mercado tem. Daí este PDR assenta em três grandes áreas ou eixos.

Um primeiro que tem por finalidade o aumento da competitividade da agricultura e da silvicultura, a melhoria do ambiente através do apoio à gestão do espaço rural e um último eixo de promoção da qualidade de vida nas zonas rurais e da diversificação das actividades económicas.

Ka –Mas, isto não acontecia já anteriormente?

AR – Acontecia em parte. A grande diferença deste quadro é que foram definidos áreas estratégicas de intervenção e fileiras estratégicas de actuação dos apoios e das apostas que o sector agrícola tem que fazer. No anterior quadro havia uma maior regulamentação e intervenção nos apoios agrícolas. Agora, o que se pretende é diminuir o nível de apoios e vocacionar mais a agricultura para o mercado.

Ka – Qual é que será o impacto destas novas medidas na nossa agricultura?

AR – A abordagem que faço é construtiva. Entendo que este PDR tem pontos fortes que temos que ser capazes de agarrar nomeadamente nas fileiras estratégicas que passam pelo azeite e olival, aposta na fileira do vinho e da vinha, nos produtos tradicionais de qualidade e na fileira da floresta e ambiente. A outra grande aposta que temos que valorizar é a diversidade das actividades não agrícolas no espaço rural. Isto passa por vocacionar algumas explorações para o turismo em espaço rural, passa por criar condições para que algumas explorações aumentem a sua actividade nomeadamente na valorização de algumas produções tradicionais. Tem que haver aqui uma aposta clara em determinados produtos nomeadamente na fileira das agro-industrias. Tem que se apostar nos produtos de qualidade.

Ka – Quando se aposta nestas fileiras do olival, vinha, produtos tradicionais, tudo isto tem a ver com a nossa região. Esta será a ultima oportunidade para a nossa agricultura e para os agricultores?

AR – Eu entendo que é uma boa oportunidade para os nossos agricultores e nós temos aqui bons agricultores. Temos que apostar aqui em nichos de mercado onde poderemos ter vantagens competitivas.

Ka – Diga-me então em que nichos se pode apostar aqui na nossa região?

AR – Podemos e devemos apostar na floresta, nos produtos biológicos e produtos certificados, na fruticultura, uma área em que podemos apostar fortemente. Isto são algumas das áreas em que aqui na região podemos apostar. A área das agro-industrias, nomeadamente, do queijo e dos enchidos tradicionais certificados, é outra das áreas em que ainda podemos apostar. Outro ponto importante passa pela promoção do território. Este pode ser promovido através dos produtos tradicionais, do turismo, do património.

Vendendo e promovendo o território, estamos a promover os nossos produtos dando-lhes um bilhete de identidade muito próprio criando por sua vez um nicho de mercado muito particular que é a melhor forma de criar espaço no âmbito da concorrência global. Porque queijo de Castelo Branco, por exemplo, só há aqui.

Ka – Quer com isto dizer que a nossa grande oportunidade passa pela aposta desses nichos de mercado?

AR – O caminho aqui é este, precisamente. Temos aqui vantagens positivas para trabalhar. A outra grande área no que diz respeito ao PDR é encontrar nas zonas rurais novas actividades que sejam inovadoras. Isto pode passar pelo desenvolvimento de um modelo de turismo local, reabilitação do património existente nas zonas rurais, criação de rotas turísticas, uma aposta forte na gastronomia. E, atendendo a nossa boa localização geográfica e com a A-23, devemos e podemos captar novas competências.

Ka – Diga-me uma coisa há apoios concretos para estas apostas?

AR – os três eixos principais que estão inscritos no PDR são os grandes objectivos que estão em convergência com as orientações estratégicas da União Europeia. O Nosso PDR tecnicamente está articulado com as políticas de orientação estratégica comunitária. Do ponto de vista económico esta deve ser a ultima oportunidade. Portanto tem que haver aqui uma acção construtiva e também uma grande convergência entre todos os interesses em jogo. Hoje o mundo rural tem também aquilo que se chama a economia social que passa pelos lares e misericórdias. Para concluir.

O PDR aparece numa altura em que há uma mudança de modelo. O modelo mais intervencionista para um mais virado para a competitividade. Tudo isto se prende com a globalização da economia. Este novo modelo vai ser sustentado pelo novo PDR em tres grandes eixos que já definimos. Aqui na região, temos condições e potencialidades para aproveitar e valorizar as actividades, aproveitando ao máximo os recursos disponibilizados pelo PDR. Temos que ser criativos e saber captar estes recursos.

Ka – Como é que se vai processar toda esta disponibilização de meios? Como é que poderão ser captados os recursos disponíveis?

AR – A partir de agora os programas serão disponibilizados e depois irão estar ligados através do Ministério da Agricultura, através das direcções regionais e também das próprias associações de agricultores que terão certamente um papel muito importante em todo este processo.

Ka- Em relação ao Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN). Falou-se muito dos supostos atrasos verificados. Isto é verdade ou estamos a falar de uma falsa questão?

AR – Julgo que se trata de uma falsa questão. O QREN é um quadro para 2007-2013, para sete anos, com uma nova abordagem. Atendendo ás grandes mudanças e ao alargamento da própria União Europeia para 27 membros, isto veio também complicar de alguma forma a gestão da aprovação dos programas quadro. Julgo que está dentro dos timmings aceitáveis.

Ka– Quais são as grandes diferenças entre o anterior quadro comunitário de apoio e o QREN?

AR – A grande diferença desde logo passa pela aposta em força na questão do potencial humano, na qualificação das pessoas. E esta qualificação entendida não só na aprendizagem ao longo da vida como cidadãos mas também como interventores na vida económica e social. Esta questão do potencial humano é fundamental. A outra grande diferença tem a ver com os factores dinâmicos de competitividade que se pretendem imprimir para a economia portuguesa. E aqui há uma grande aposta na inovação e na incorporação tecnológica nas nossas produções. Aposta-se ainda na internacionalização da economia portuguesa e no enquadramento da nossa economia na economia global. Isto tudo passa por um aumento da investigação, não só nas universidades como também nas próprias empresas e também na valorização das actuais produções.

Outra grande aposta passa pela criação de um clima que propicie o empreendorismo de uma forma generalizada, isto é, deixarmos o modelo em que se apoiava a industria tradicional cujo objectivo era criar postos de trabalho e ter industrias menos qualificadas com mais mão de obra intensiva e partir para outro modelo em que se aposta mais na tecnologia na inovação e na ligação efectiva entre as empresas e a universidade.
Por outro lado, pretende-se valorizar as infra-estruturas territoriais como elementos valorativos neste quadro concorrencial. Ou seja estes equipamentos existentes valorizam e aumentam a competitividade das próprias produções regionais.

Ka – Em relação às pequenas e médias empresas (PME). Há ou não uma aposta clara nestas empresas no QREN?

AR – este QREN tem uma aposta clara nas PME. Principalmente, através de um programa operacional para factores de competitividade que pretende apoiar todos os tipos de projecto em qualquer área de intervenção. O QREN assenta em três grandes agendas operacionais. A agenda operacional para o potencial humano, a agenda operacional para os factores de competitividade e a agenda operacional para a valorização do território.
Estas agendas ou melhor este formato de agenda operacional pretende criar um clima de gestão e implementação do QREN mais operacional. Vai reduzir-se muito a burocracia. Há uma grande articulação também entre as agendas. Neste momento estão já operacionais o sistema de incentivos à investigação e desenvolvimento tecnológico, o sistema de incentivos a inovação e o sistema de incentivos à qualificação e internacionalização de PME’s.

Ka – Esta era uma questão essencial, a aposta nas PME? Pela primeira vez vai haver uma aposta clara nestas empresas que são o grosso da nossa economia?

AR – Há uma aposta muito clara nessa direcção e também nas questões tecnológicas e de inovação. Isto como factores estratégicos de competitividade. Só introduzindo estes dois factores nas nossas PME’s é que temos competitividade para o mercado internacional e para a internacionalização. Com um tecido destes estamos a criar espaços para integrar novas competências, ou seja, novos quadros qualificados e uma empregabilidade sustentada.
A implementação correcta destes dois instrumentos, O PDR e o QREN, virão criar um bom ambiente para o aparecimento e novos projectos e iniciativas e consequentemente haverá uma valorização da própria região.

Ka – Quanto ao QREN também se pode dizer que este será a última grande oportunidade para o País e consequentemente para a região?

AR – Claramente. Não se deve deixar passar esta oportunidade. Temos que ser nós a resolver os nosso problemas. Temos que encontrar as soluções para os nossos problemas. Esta é a ideia central.

in Kaminhos

8 comentários:

Inácio disse...

Para quando noticias relacionadas com a nossa Terra - TRANCOSO - e não colagens ou cópias de outros orgâos de comunicação que também são lidas.
Quando será a altura de voltar este blog para o Nuno ou pelo menos para o formato de noticias que ele nos habituou?
Por favor, que blog mais sem jeito... quando era dos mais lidos da região.

Frederico disse...

Caro Inácio,
Como saberá, o meu objectivo para este projecto é de desenvolvimento regional.
Tal não impede de se publicar informação sobre Trancoso, para o qual o convido desde já para essa tarefa.
Para além disso, e pelo que percebi, a informação que procura já existe num espaço que recomendo e que se chama "Portal de Trancoso".

Sobre a segunda questão, o facto de publicar textos de outros sitios, não constitui qualquer desmérito para este espaço sem fins lucrativos. Se existem bons trabalhos sobre a região, e ainda mais sobre o desenvolvimento regional, eles devem ser dados a conhecer. E esse é o meu objectivo enquanto editor.

Um abraço

Inácio disse...

Caro Frederico

Passo a comentar a sua resposta:
-Diz que o seu objectivo para este projecto é de desenvolvimento regional, pois então é de uma regionalidade que eu não conheço, pois anteriormente quando este blog foi criado pelo seu autor era dedicado a Trancoso e concelhos vizinhos não a uma determinada região, quanto ao desenvolvimento deixa muito a desejar a sua colaboração;
-Quanto ao dar-em a conhecer o Portal de Trancoso é mesmo de quem nada sabe ou cehece da realidade, pois além de ser membro inscrito, desde o seu inicio, o senhor não o é, pelo menos com nome próprio, e acompanho e colaboro desde a sua criação no referido Portal;
-Quanto a se auto intitular de editor eu o chamaria mais de um 'colador' de informação sem nada acrescentar ou comentar.
Agora quanto ao essencial me custa ver um blog do qual também dei alguma coisa para a sua criação o ver no estado lastimável que se encontra, senão veja a quantidade de procura que tinha aquando do seu fundador e a actual procura ou os comentários existentes sobre as suas importantes noticias aqui publicadas.
CumprimenTTos e votos de optimo Natal são os meus desejos

Frederico disse...

Caro Inácio,
Gostei de o ler.

Apareça sempre.

Anónimo disse...

Caríssimos,

Como leitora assídua, repugna-me que este local (comentários)seja utilizado para "lavagem de roupa suja". Vivemos numa democracia e custa-me ver que determinadas pessoas ficam incomodadas com mudanças... Realmente como cidadã de Trancoso e empresária não deixo de poder comentar ao que REALMENTE O TÍTULO DIZ! porque é assim mesmo..... Em Trancoso, realmente tem-se apostado em locais de eleição para aquilo que o Sr Inácio, de certo sabe fazer, "lavar roupa suja" Desenvolvimento? Apoios? Só se for a nível de funcionalismo público.... enfim

Patrícia disse...

"O meu país sabe às amoras bravas no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país,
talvez nem goste dele,
mas quando um amigo me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul."
Eugénio de Andrade ("O Outro Nome da Terra")

O meu país desilude-me muitas vezes.
Não é o sol (que é fantástico), não são as paisagens (temos lindíssimas), nem sequer a situação político-económica.
Desiludem-me as mentalidades. o negativismo, o saudosismo, a resistência a ideias novas, a crítica destrutiva...
Desilude-me a ignorância.

Obrigada, Frederico, por ainda seres capaz de acreditar.

Frederico disse...

Cara Patrícia,
Agradeço de forma muito sensibilizada as suas palavras.

Volte sempre!

Instituto da Democracia Portuguesa disse...

Gostámos muito do seu Blog
reproduzimos entrevista sobre Antonio Realinho
http://www.somosportugueses.com/modules/articles/article.php?id=361

Nos aqui em Lisboa, somos portugueses e defendemos o território

Bom Natal e boa informação